Infertilidade. “Custa-me perceber que o casal não parte para o tratamento por motivos financeiros&rdquo

ūüí•ÔłŹAs tem√°ticas escolhidas para as FNAC Talks foram ‚ÄúS√≠ndrome do ov√°rio poliqu√≠stico e miomas‚ÄĚ, ‚ÄúAbordagem ao Casal Inf√©rtil‚ÄĚ, ‚ÄúInfertilidade masculina‚ÄĚ, ‚ÄúMenopausa precoce‚ÄĚ, ‚ÄúQuest√£o √©tica e fertilidade‚ÄĚ. Porqu√™?

No presente mês vamos abordar a síndrome do ovário poliquístico, que corresponde à principal causa de infertilidade feminina. Esta é a doença endocrinológica mais comum em mulheres em idade reprodutiva. Já os miomas são uma das causas de infertilidade associadas a falhas de implantação, de hemorragia e dor, daí a opção por este tema.

Não esquecendo o homem, 30% das causas de infertilidade são puramente masculinas. Ainda é comum os casais chegarem à consulta e ainda não terem feito um espermograma, algo que deve ser feito logo no início da abordagem ao casal infértil.

Quanto √† menopausa precoce, esta √© uma doen√ßa que, a seguir √† endometriose, √© das que tem um maior impacto. Nestes casos, as mulheres s√£o diagnosticadas com uma reserva ov√°rica abaixo do normal, com impacto na fertilidade. A probabilidade de engravidarem, de terem √≥vulos de qualidade, de terem embri√Ķes √© mais baixa do que o normal e, por vezes, o que acontece √© que a mulher faz a toma da p√≠lula durante grande parte da idade reprodutiva e, quando para a toma deixa de menstruar, algo que pode ser proveniente da tal insufici√™ncia ov√°rica, e que com a p√≠lula n√£o evidenciava qualquer sintoma. O grupo de mulheres com esta causa de infertilidade necessita de m√ļltiplos tratamentos de modo a conseguir engravidar com os seus pr√≥prios √≥vulos.

No campo das quest√Ķes √©ticas e de fertilidade, o tema da gravidez de substitui√ß√£o e das barrigas de aluguer √© algo que est√° em voga, e √© um tema que precisa de ser abordado do ponto de vista √©tico. Acredito que mais cedo ou mais tarde vai ser aprovada a gesta√ß√£o de substitui√ß√£o. N√£o foi aprovada agora, mas imp√Ķem-se quest√Ķes √©ticas, tanto do futuro como do presente.

Em 2016 surgiu o tema do cessamento do anonimato dos dadores e das dadoras. Este continua a ser um tema que abordamos com os casais, e muitos procuram fazer os tratamentos em centros internacionais e n√£o em Portugal precisamente devido √† quest√£o do anonimato. Ser√° que o anonimato √© bom ou n√£o? A crian√ßa que nasce fruto de t√©cnica medicamente assistida com recurso a doa√ß√£o de √≥vulos e espermatozoides, quando √© que deve ser informada, se √© que deve ser? Estas quest√Ķes s√£o relevantes e √© importante que a popula√ß√£o em geral e as pessoas que passam por esta situa√ß√£o estejam sensibilizadas para o tema.

‚ÄúTent√°mos juntar as principais causas de infertilidade e terminar um pouco com quest√Ķes √©ticas a n√≠vel do presente e do futuro.‚ÄĚ

ūüí•ÔłŹComo deve ser feita a abordagem ao casal inf√©rtil?

Por vezes, é necessária uma abordagem multidisciplinar, não apenas por parte do Ginecologista, mas caso haja alguma doença ao nível da tiroide também um endocrinologista, e se houver algum fator masculino convém marcar uma consulta com um urologista. Também do ponto de vista psicológico, os psiquiatras e os psicólogos podem ajudar nesta abordagem.

Tanto na Medicina de Reprodução como noutra patologia qualquer devemos começar pela história clínica: idade das doentes, doenças anteriores, se existem filhos anteriores e como foram os partos, se já foram submetidas a cirurgias, que medicamentos tomam, se existem alergias a medicamentos, se existe alguma história familiar de infertilidade, por exemplo, se a mãe da mulher teve menopausa precoce ou se teve uma insuficiência ovárica precoce. Quanto ao homem, fazemos também uma anamnese.

Depois passamos para o exame objetivo: apalpa√ß√£o abdominal, ver a posi√ß√£o do √ļtero, perceber se existe dor face √† mobiliza√ß√£o do colo do √ļtero. De seguida, passamos para o meio complementar de diagn√≥stico mais comum, que corresponde √† ecografia ginecol√≥gica, que se faz quase sempre na consulta de apoio √† fertilidade. Na ecografia √© visto o √ļtero, os ov√°rios, as trompas, e ap√≥s tudo isso decidimos que an√°lises e que meios complementares de diagn√≥stico pedir, se √© preciso fazer resson√Ęncia ou uma ecografia 3D, ou at√© mesmo se √© necess√°rio fazer alguns testes gen√©ticos. A realiza√ß√£o de um espermograma tamb√©m √© muito importante.

Consoante os resultados, tentamos encaixar o casal numa das possíveis causas de infertilidade, e com isso disponibilizar as alternativas terapêuticas. O tratamento pode passar por um simples coito programado ou inseminação artificial, ou pode ser necessário fazer um tratamento de segunda linha, mais complexo, como uma fertilização in vitro (FIV).

ūüí•ÔłŹA Medicina da Reprodu√ß√£o nem sempre consegue dar uma resposta aos casais. Como se consegue lidar com esta situa√ß√£o?

Em qualquer que seja o tratamento, não existem taxas de sucesso. O que acontece é que existe uma taxa cumulativa de sucesso, ou seja, no caso de um casal que faz uma FIV, a taxa de sucesso no primeiro tratamento é 30%, no segundo passa para 40% e no terceiro passa para 50%. Há casais em que a taxa de sucesso máximo pode passar para 70%.

Por√©m, existe sempre uma margem de 10 a 20% que n√£o conseguem engravidar com os seus √≥vulos, e a√≠ temos de pensar em alternativas, que podem passar por recurso a doa√ß√£o, quer seja de espermatozoides, quer seja de √≥vulos. N√£o existem taxas de sucesso de 100%, mas se consegu√≠ssemos fazer tudo e pensar em cen√°rios B e C com doa√ß√£o de √≥vulos ou doa√ß√£o de espermatozoides, em alguma situa√ß√Ķes talvez consegu√≠ssemos a taxa de sucesso pretendida.

De facto, a procriação medicamente assistida tem imenso a oferecer, todas as técnicas, FIV’s, diagnósticos genéticos, doação de óvulos ou espermatozoides, etc, mas existe um custo inerente a tudo isto. Infelizmente estas ainda são técnicas extremamente caras, porque o investimento é muito grande, manter um laboratório e uma clínica de procriação medicamente assistida envolve valores muito grandes, daí que os tratamentos sejam tão caros. Como médico, o que mais gostava era de poder ajudar toda a gente, mas existe um custo associado a todo este processo.

‚ÄúNuma consulta, custa-me perceber que o casal n√£o parte para o tratamento por motivos financeiros.‚ÄĚ

ūüí•ÔłŹA infertilidade ainda √© uma doen√ßa escondida e com tabus?

Em 2023, quando comecei este projeto, ainda havia muito a quest√£o do tabu, mas noto que ao longo do tempo tem vindo a desaparecer. As pessoas j√° falam mais sobre o tema, at√© mesmo especialistas de outras √°reas, m√©dicos, enfermeiros, embriologistas, ajudam a desmistificar a problem√°tica da infertilidade com o intuito de procurar solu√ß√Ķes.

O facto de uma pessoa procurar ajuda atempadamente, seja dois ou três anos antes, vai permitir que o diagnóstico seja completamente diferente do que se fosse apresentado mais tarde, e por exemplo, em casos de doentes com insuficiência ovárica, faz muita diferença.

A OMS definiu que, se durante um ano um casal não consegue engravidar, convém procurar ajuda. Em casos de mulheres com ovários poliquísticos, endometriose, mulheres com cirurgias pélvicas, mulheres que já sabem à partida que podem ter problemas para engravidar, este timing é reduzido para seis meses. Se durante este período não surgir uma gravidez, deve procurar ajuda, independentemente dos custos, pelo menos para ter consciência de qual é o problema que está a impedir a gravidez.

Depois h√° outra quest√£o. Um tratamento FIV custa 3850 euros. Qual √© a taxa de sucesso? Muitas das vezes rondam os 30 a 40%, dependendo de cada caso, ou seja, as pessoas gastam o dinheiro e n√£o √© certo que isso traga a gravidez, o que tem um grande impacto. Deveria haver mais incentivos, os pr√≥prios privados deveriam fazer uma comparticipa√ß√£o significativa dos tratamentos. Acredito que esta quest√£o vai mudar em Portugal e que vai acontecer um pouco como internacionalmente, em que as pr√≥prias seguradoras e at√© mesmo o Estado investem na √°rea, mas ao dia de hoje podia, pelo menos, haver uma pequena comparticipa√ß√£o, tanto da parte do setor p√ļblico, como do privado.

ūüí•ÔłŹCG

ūüí•ÔłŹNot√≠cia relacionada

ūüí•ÔłŹInvestiga√ß√£o revela informa√ß√Ķes que podem contribuir para diagnosticar e tratar a infertilidade masculina de origem desconhecida

O que voc√™ est√° lendo √© [Infertilidade. “Custa-me perceber que o casal não parte para o tratamento por motivos financeiros&rdquo].Se voc√™ quiser saber mais detalhes, leia outros artigos deste site.

Wonderful comments

    Login You can publish only after logging in...