Policiais precisam existir para proteger pessoas, e não para matá-las

Mais de 800 jovens, entre 11 e 14 anos, matriculados em 120 escolas públicas e privadas da cidade de São Paulo, foram acompanhados por quatro anos (o tempo de um mandato).

Eu já tive essa idade, sou raíz do ensino público e bem?sou negro - só não em São Paulo. Mas senti na pele as questões que atravessam o imaginário que apresento, justamente por este fator, um perigo urgente que me fez e ainda faz ser encarado com brutalidade por um "fardado?"

"Os brancos são muito menos parados [pela polícia] do que os pretos. O relatório chama a atenção para um debate fundamental de longo prazo, que é o da abordagem policial desproporcional por raça", resume Renan Theodoro, um dos organizadores do relatório, que também aponta uma triste constatação: o fato de que já aos 11 anos, ou seja, ainda no período da infância, crianças relatam já terem sido paradas por agentes policiais. "Nesta idade, eles já estão respondendo 'sim, fui enquadrado'".

Ninguém apaga da lembrança uma vez que isso acontece, como foi comigo, aos 12, e com tantos outros por aí enquanto você lê este texto. Uma vez visto assim, você nunca deixa de ser, e logo então, as marcas ficam mais duras. Vive-se com o assombro de ser parado novamente mesmo sem nunca ter cogitado fazer algo. A nóia é insana, com impactos que levamos por toda a vida.

Mas que não assusta, já que é neste mesmo recorte etário que o Brasil simplesmente aniquila suas possibilidades, perdendo a juventude para lugares onde elas não deveriam estar presentes, perdendo pessoas conhecidas como "a gente".

De acordo com o último Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 50% das vítimas de morte violenta intencional tinham entre 12 e 29 anos. Mesma idade dos 16 mortos na recente Chacina do Guarujá, a partir da morte de um soldado da Rota. A operação ganhou status de "profissionalismo" do que se pode e deve fazer na validação do governador de SP, Tarcísio de Freitas, apesar dos relatos de violações de direitos aos moradores.

É preciso riscar no chão os limites, além de mandar "a real" sobre os motivos que levam agentes de segurança, destinados e responsáveis à proteção da sociedade, a fazer o que fazem - não apenas em São Paulo. A lista de interrogações é gigante: porque abordagens assim ainda ocorrem? Por quais motivos seguimos numa política de segurança pública que tem como norte expor números chocantes de mortes como prêmios? Como mudar, então, a cultura institucional de abordagem da PM?

Nessa fita, não se esgotam os fatos. Os policiais são levados a trabalharem sob constante terror, fazendo de suas vidas escudos-humanos de uma população atravessada por diversas faltas. E que coloca nas mãos desses mesmos agentes, a culpa por setores que não são do seu metiê. Deles, cobramos segurança até a habitação, passando pela economia e chegando na saúde. Falhamos.

O que não podemos seguir é na trajetória de erros que a cada dia nos conectam de maneira mais dura com o descalabro, ampliando o medo do ?menó?, sem mostrar outras perspectivas, sem mostrar vida. Mas que fazemos o contrário, ao empilhar, na forma e na ação, para onde vão aqueles que têm as mesmas características (ou como devem ser levados).

A discussão precisa ser ampliada com lupa. Repetidos, o modus operandi é visto na Bahia, mas sem força de crítica; e no Rio de Janeiro, possível escola dos demais estados e capitais do país. Não é possível aceitar esse tipo de trajetória, negliciando para alguns, sendo críticos ferrenhos uns aos outros.

Gente é pra ser protegida, não para ser tratada ou morrer assim.

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