Não vi nenhuma luz, diz Salman Rushdie após levar 15 facadas e quase morrer

Os radicais religiosos que odeiam Salman Rushdie podem ir tirando o cavalinho da chuva.

Não há nada do lado de lá. Enquanto recebia 15 facadas de um fanático, em agosto de 2022, o autor não viu luz no fim do túnel ou coros celestiais. Tampouco o Diabo pronto para puni-lo por uma vida inteira de ateísmo. O escritor encarou a morte de perto e saiu tão descrente quanto antes. Enquanto sentia que estava desaparecendo, pensava em duas coisas: uma, mais fútil, era seu terno de grife arruinado; outra, claro, era o forte desejo de viver.

O ataque, cometido por Hadi Matar, um jovem de 24 anos, foi a concretização de uma ameaça que parecia ter desaparecido. Em 1989, o então líder religioso do Irã, o aiatolá Khomeini, sentenciou Rushdie à morte pela publicação do livro "Os Versos Satânicos", considerado blasfemo. O autor passou anos escondido, mas, no dia em que foi esfaqueado, já levava uma vida normal havia duas décadas.

Rushdie, um símbolo da luta pela liberdade de expressão diante do radicalismo religioso, viveu para contar. Em "Faca - Reflexões sobre um Atentado", ele relembra o ataque que o deixou sem a visão de um olho e com menor mobilidade em uma das mãos. Ao mesmo tempo em que narra o crime de ódio do qual foi vítima, o livro também é um ensaio sobre o amor —encarnado na mulher e nos filhos que estiveram ao seu lado durante a recuperação.

Agora, Rushdie se prepara para encontrar seu agressor, em um julgamento que deve acontecer no segundo semestre. E está pronto, garante. Em entrevista exclusiva, ele conta como foi chegar tão perto da morte, discute novas ameaças à liberdade de expressão e explica por que não quer mais falar de religião —mas fala.

O sr. ficou se viu diante da morte e, pelo visto, voltou com o ateísmo intacto. Porque nada aconteceu! Estar perto da morte não me fez questionar meu ateísmo. Não vi anjos, nenhum coro, nenhuma luz. Não vi os portões do inferno nem os do paraíso. Eu era só uma pessoa no chão, sangrando.

Alguns religiosos acreditam que os ateus vão renunciar à sua descrença em momentos como esse. Sem chances.

A sua geração de intelectuais teve ateus militantes, como Christopher Hitchens. Vocês conseguiram algo com esse ateísmo ou a religião venceu? Não queria conquistar nada com o meu ateísmo. Sempre foi algo pessoal. Fui criado em uma família secular. Meu pai tinha um enorme interesse na religião, era uma espécie de intelectual dessa área, mas não tinha nenhuma crença. Lembro quando ele estava à beira da morte. Meu pai nunca apelou a nenhum ser divino. Mesmo no final de tudo, ele não mudou.

Foi a revolta dos religiosos que levou o sr. a ser primeiro sentenciado à morte e, depois, a sofrer o atentado. No fim do livro, o sr. diz que não quer mais falar sobre religião. Por quê? Claro que, em certo sentido, preciso falar desse assunto, porque um fanático religioso me fez escrever esse livro. Mas sinto que já fiz a minha parte. Escrevi sobre isso. Religião não é tudo. Quero pensar em outras coisas.

Na época de "Versos Satânicos", o Islã radicalizado era visto como a principal ameaça à liberdade de expressão. Hoje, vemos atos de censura vindos de políticos e grupos cristãos. A cristandade hoje é uma ameaça maior do que naquela época? Nos Estados Unidos, com certeza, com o crescimento dos evangélicos, o que é um grande elemento do trumpismo. E é bizarro, porque Trump mesmo não sabe nada de religião e posa como o mais espiritualizado do mundo.

Foram os cristãos que influenciaram a queda do precedente do caso Roe v. Wade, pela Suprema Corte, suspendendo o direito ao aborto no país. Há uma estranha aliança entre o cristianismo radical e os supremacistas brancos. É um cristianismo para os brancos. Afinal, como todos sabem, Jesus Cristo era branco como a neve! [risos]

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