Gerando Falcões passa bastão a moradores de favela em SP e expande modelo de gestão

O modelo de gestão de favelas da ONG Gerando Falcões entra em nova fase de expansão a partir deste ano e, pela primeira vez, vai passar o bastão para os moradores de uma das áreas atendidas.

Batizado de Favela 3D, o projeto começou a ser implantado há mais de dois anos em Ferraz de Vasconcelos, município da região metropolitana de São Paulo, com investimento de R$ 7 milhões. O recurso foi usado para derrubar barracos, construir casas provisórias, pavimentar as ruas, instalar postes de luz solar e outras melhorias em uma área que abrange cerca de 200 famílias.

O investimento é relativamente baixo, se comparado ao projeto modelo da ONG, o Favela Marte, iniciado em São José do Rio Preto (SP), que envolve quase R$ 60 milhões, com saneamento completo e prazo mais longo de implantação.

A diferença no caso de Ferraz de Vasconcelos é que as casas funcionam com estrutura de biosaneamento para coleta de resíduos e não foram construídas de alvenaria, mas de placas feitas com tubos de pasta de dente reciclados, um material mais barato, cuja vida útil gira em torno de dez anos.

A ideia é que, nesse prazo, os moradores conquistem o que Edu Lyra, fundador da Gerando Falcões, chama de "passagem para a dignidade", quando poderão reconstruir suas instalações. "À medida que evoluem socialmente, eles têm a opção de construir uma casa de alvenaria", diz.

Junto com o investimento, a ONG levou, em parceria com grandes companhias, programas de geração de renda, saúde, educação e avaliação de indicadores. O Fleury, que instalou cabine de telemedicina, e o Google, com o CEP digital para viabilizar a chegada de encomendas, estão entre as empresas parceiras.

Hoje, quem caminha pelo bairro vê casas pintadas com murais coloridos, jardins floridos e placas com fotos antigas para relembrar o cenário degradado que ficou no passado.

Quando o projeto chegou a Ferraz de Vasconcelos, o nome da favela era Boca do ysoke. Nos primeiros encontros, os moradores fizeram uma assembleia e decidiram mudá-lo para Favela dos Sonhos, em busca de um título menos estigmatizado e mais inspirador para os seus habitantes.

O processo começou com o cadastramento das famílias em um programa chamado Decolagem, que funciona como uma espécie de censo da Gerando Falcões, registrando dados como matrícula em creche, acesso a produtos básicos, banheiro em casa, refeições diárias, violência doméstica e área de risco. A evolução dos índices de cada família é acompanhada por um grupo de mentores da ONG.

"Às vezes, a pessoa não tem informação sobre seus direitos. Não sabe ir no Poupatempo tirar o RG ou não tem o dinheiro para pegar o ônibus e ir até lá. Não sabe como faz para entrar no Bolsa Família. O mentor passa conhecimento sobre cidadania, direitos e deveres", diz Lyra.

A transmissão da gestão aos moradores, que é chamada de desmame, deve terminar em julho e será feita com protagonismo de um grupo de mulheres do bairro, que passaram por capacitação para criar uma ONG local e cuidar da manutenção do desenvolvimento social.

A ideia é que o próprio grupo acompanhe casos de crianças que deixaram a creche, pais que perderam o emprego ou outras situações.

A outra frente do desmame é a zeladoria, que recebeu o nome de Zela Favela, também gerenciada por moradores. Nela, o morador paga uma mensalidade, para cuidar de casos como telhado quebrado, problemas no biosaneamento e outras manutenções.

"Se isso funcionar, o case será perfeito. É a transformação que a favela sempre sonhou, de uma dignidade durável, capaz de ser sustentada e permanente", diz Lyra.

Segundo ele, o plano de expansão da Gerando Falcões já está levantando recursos para projetos previstos em Belo Horizonte, Guarulhos, Curitiba e Itaquaquecetuba (SP). O Programa Decolagem também será expandido de forma independente para ser levado a favelas que não estejam passando pelas reformas do Favela 3D. A ideia é atender 15 mil famílias em 2024.

A Favela dos Sonhos também funcionou como um dos pilotos do projeto As Mara, um modelo de negócio social para geração de renda feminina que recolhe roupas e calçados de doação para revender em diferentes comunidades.

A operação se baseia em um centro de distribuição que coleta as doações de empresas e pessoas físicas. Depois, seleciona, faz ajustes, precifica, etiqueta e distribui entre as mulheres do projeto, que vendem os produtos. A receita gerada paga a comissão das revendedoras e o custo da operação. As peças não vendidas retornam à central para serem encaminhadas a outras vendedoras, circulando o estoque em diferentes locais.

Segundo Mayara Lyra, diretora de negócios sociais da Gerando Falcões, a rede envolve 600 mulheres em parceria com mais de 20 ONGs. "Neste ano, a meta é captar 3 milhões de itens. Temos uma escala grande de doação e podemos elevar a vida útil das peças, contribuindo com a moda circular e cruzando uma agenda de clima com superação da pobreza", diz.

Uma das participantes do As Mara, Jaqueline Silva afirma que fez um curso profissionalizante de design de sobrancelhas, e o lucro da venda das roupas a ajudou a comprar uma cadeira para atender suas clientes em casa, lhe permitindo conciliar o trabalho com os horários da rotina de tratamentos do filho, que tem paralisia cerebral. "Quando as clientes vêm fazer sobrancelha, eu mostro as roupas", diz.

Para Pauliana Leite, que é líder social na Favela dos Sonhos e vai atuar no processo de passagem de bastão, uma parte importante do resultado buscado é o avanço da autoestima. Ela lembra que, antes de participar do projeto, tinha medo de se comunicar, levar o filho no médico ou entrar no supermercado.

"Não era timidez. Era autoestima muito baixa. A pobreza vem de várias formas. Não é só dinheiro. Na minha casa não faltava comida, mas eu sentia algo. Eu esperava alguém responder por mim. Hoje, as pessoas me perguntam como eu consegui aprender a falar com tanta gente. É um passo de cada vez: achar quem te ajuda, quem diz que você pode e reconhecer os seus direitos", diz.

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